sábado, 5 de janeiro de 2013

Por que comemoramos o Natal?




Pois é, o Natal foi na semana passada, e cá estou falando dele. Mas é exatamente esse o ponto. Todo ano é a mesma coisa. Quem está acostumado a debates acerca de temas religiosos ou teológicos na internet sabe que todos os anos esse assunto reaparece; as pessoas dão um jeito de discutir, mais uma vez, sobre “Jesus não ter nascido em 25 de dezembro” e coisas (irrelevantes) desse tipo. O mundo não foi criado em 1º de Janeiro, e ninguém discute isso.

Outro assunto discutido nessa mesma linha é sobre o “erro” de se ter um dia para comemorar o nascimento de Jesus. Afirmam os salvadores do mundo que devemos comemorar o nascimento (e tudo o mais) de Jesus todos os dias, e não em um dia específico. O primeiro problema, o de se verificar se Jesus nasceu ou não no dia 25 de dezembro, é mera curiosidade histórica; não é um problema propriamente teológico. Mas essa segunda questão certamente é doutrinariamente relevante, porque toca em um ponto mais profundo. Não se trata de uma doutrina abstrata, acima das nuvens, ou de um fato perdido em um passado longínquo, nas brumas da história antiga. Trata-se de algo completamente sem nuvens. Trata-se da prática corriqueira de, como cristãos, adorarmos em conjunto.

Por que comemoramos o Natal? Simples. Porque Jesus nasceu.

Cremos que Jesus nasceu. A mera afirmação “Jesus nasceu” é um dogma fundamental do cristianismo, uma rocha sólida e plana sobre a qual todo o edifício da doutrina e da prática pode se erguer sem medo, em projeções arquitetônicas que de outro modo seriam impossíveis. Afirmamos que o Senhor celeste, a quem dedicamos adoração e culto, nasceu.

Um cristianismo sem esse dogma não seria cristianismo. Não é sem motivo que uma das primeiras heresias enfrentadas pelo cristianismo negava precisamente essa simples afirmação, de que Jesus nasceu. Os gnósticos e docetas pregavam, dentre outras impropriedades, a de que Jesus simplesmente desceu do céu. O Evangelho, entretanto, mantém que “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (João 1:13). Nesse sentido, o dogma é mais realista que a heresia; não é nada realista dizer que um carpinteiro judeu desceu do céu. Afirmar que Jesus nasceu significa, de fato, afirmar que o Deus dos Céus e o homem Jesus de Nazaré são um mesmo ser. Significa que em um só ser os Céus e a Terra estão, sem qualquer contradição, unidos, conciliados. É o cruzamento da história humana com a metafísica divina.

De toda sorte, o Natal é como que uma fortaleza contra a heresia doceta. Todos os anos lembramo-nos de que Jesus nasceu. Todos os anos comemoramos, memoramos com, memoramos conjuntamente o memorável fato de que o memorável Filho de Deus nasceu no nada memorável quintal do mundo, em alguma data imemorável.

Somos seres comemorativos. Vivemos a comemorar coisas. Isso se dá, em parte, porque a vida é matizada dos mais diversos sofrimento. Quando algo incrível acontece, fazemos questão de relembrar esse algo incrível, em trazer esse algo incrível para o dia de hoje, especialmente quando essa lembrança é maior do que todos os nossos sofrimentos atuais. Inevitavelmente comemoramos.

Mas isso, por si só, não responde à pergunta levantada. Por que devemos comemorar isso em um dia apenas, e não todos eles?

Desculpem-me os salvadores do mundo, mas Jesus nasceu em um dia do ano apenas.

O motivo, na realidade, é bem simples: Deus fez uma quantidade muito grande de coisas incríveis, de modo que não temos como comemorar todas elas ao mesmo tempo. Podemos talvez lembrar a todos os mais importantes em um dia, mas não podemos, de modo algum, comemorar a todos eles da forma que merecem. Quando olhamos o Natal isoladamente, poderíamos pensar que deveríamos comemorá-lo todos os dias, e não apenas em 25 de dezembro. Mas isso se dá porque, estando nós na época natalina, a nossa visão desfoca pela proximidade do objeto. Quando, entretanto, tomamos a devida distância e observamos que, além desse objeto, há uma quantidade imensa de outros, podemos avaliar na devida proporção.

Comemorar não é apenas lembrar. Podemos (e devemos) lembrar todos os dias que Jesus nasceu. Mas não podemos comemorar a isso todos os dias. Aqueles que dizem que podemos (ou devemos) fazê-lo não o fazem, porque não há como fazê-lo. Comemorar é, em conjunto (como em uma festa), trazer à memória um fato passado notável. E a medida da nossa comemoração é proporcional à intensidade do fato comemorado.

O nascimento de Jesus não é um fato de pouca intensidade. Dizemos que Jesus de Nazaré é Deus e dizemos que ele é homem. Dificilmente se pode imaginar algo de maior intensidade. Quando proclamamos que isso não é simplesmente uma fabulação, mas um fato histórico ocorrido em algum momento do passado, ou seja, quando dizemos que a doutrina do Deus-homem está contida no dogma de que “Jesus nasceu”, colocamos diante de nós um dos fatos mais dignos de nota já vistos. O nascimento de Jesus merece, portanto, uma grande festa, uma das maiores. É claro que não somos capazes de fazer isso todos os dias.

Mas é aqui que entra um ponto chave no que tange ao culto cristão. No nosso tempo, o individualismo é uma das sementes do caldo cultural e valorativo do qual bebemos. Inevitavelmente nós, protestantes, permitimos que esses valores penetrem na Igreja e moldem a forma como interpretamos a doutrina e a prática. Entretanto, não há lugar para individualismo (o que não é o mesmo que individualidade) na Bíblia. Cada um de nós, como cristão, adora individualmente. Mas a Igreja também adora. É preciso aqui ter bem em mente o axioma eclesiológico de que a Igreja não é a soma algébrica dos indivíduos que a compõem. Nenhum de nós é, individualmente, a Igreja. “A Igreja sou eu” é uma doutrina certamente diabólica. A Igreja é apenas a reunião de todos nós, de diversas épocas e diversos lugares. “Somos (…) um só corpo, porque participamos do mesmo pão” (1 Coríntios 10:17).

Nesse sentido é que se coloca fundamentalmente o lugar do culto público. Sem dúvida devemos adorar a Deus individualmente, cada um na solidão de seu quarto fechado, no alto de uma montanha ou no fundo de uma caverna. Porém não é apenas cada um de nós que adora a Deus. A Igreja adora a Deus. E se essa reunião de todos nós que é a Igreja deve adorar a Deus, estamos todos, como cristãos, obrigados a nos reunirmos para adorar a Deus. Não é suficiente que cada um adore a Deus em seu lugar. É muito pouco.

Por isso nos reunimos, como cristãos, constantemente, para adorar a Deus. E se, como dito, o nascimento de Jesus merece certamente uma comemoração digna, a Igreja deve, em algum momento que se repita (de modo a permitir que cada um de nós faça parte dele), se reunir para adorar a Deus pelo nascimento de Jesus Cristo, lembrando esse fato essencial.

Ninguém que afirma que devemos adorar a Deus em todos os momentos o faz. Isso se dá porque inevitavelmente enquanto estivermos neste mundo, vivemos como animais, sujeitos a paixões e necessidades. Da mesma forma, como dito, ninguém que afirma que devemos comemorar o nascimento de Jesus todos os dias o faz. Mas há algo mais na essência da comemoração a se notar. Como se diz, aquilo que está em todos os lugares é fatalmente invisível. Se comemorássemos em todos os dias, no fim não comemoraríamos em dia algum. Comemorar sempre é o mesmo que não comemorar nunca.

Não nego, portanto, que Jesus mereça por seu nascimento uma comemoração digna todos os dias do ano. Mas vamos mais devagar. Quando formos capazes de comemorar um dia apenas sem discutir isso, podemos pensar em comemorar dois dias no ano, três, e sucessivamente.

(G. Montenegro)


 

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